Descanso para os olhos, Design de interiores

A influência das cores

Sabemos que as cores exercem influência no nosso estado de ânimo, mas é preciso ter muito cuidado ao tirar conclusões precipitadas.

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O vermelho em excesso, por exemplo, pode ser cansativo ou irritante num ambiente, quando associado a determinadas formas e inserido num jogo específico de contrastes. O mesmo tom de vermelho, em outro contexto, associado a outras formas e cores, pode ter um efeito acolhedor e agradável, como mostram as imagens a seguir.

Exemplo de ambiente dominado pelo vermelho, no qual a distribuição dos elementos e a criação de fortes contrastes coopera para a sensação de sobrecarga e intensidade, tornando o espaço visualmente cansativo para uma longa permanência. Contribui para esse efeito, o estilo rebuscado do mobiliário e a presença de estampas, que estimulam o olhar na identificação dos seus detalhes.
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Exemplo de ambiente dominado pelo vermelho com distribuição setorizada dos elementos e cores. Tonalidades menos intensas tonam os contrastes mais confortáveis ao sistema visual, criando áreas de continuidade e, consequentemente, um espaço mais acolhedor para longa permanência.

Em meus estudos sobre a percepção das cores, desenvolvidos na USP durante as pesquisas de mestrado e doutorado, realmente constatei, com base na neurociência e na semiótica discursiva, que este assunto fascinante é bastante complexo. O efeito da percepção das cores se dá através de uma rede de relações nos cenários em que as percebemos. As formas, estilos, texturas e associações culturais interagem com as cores para dar sentido a elas. Assim, a interpretação da cena visual é o resultado intrincado de todas essas relações.

A sensação cromática interage com outros sentidos além do visual, como paladar, olfato, tato, audição, sensação de frio ou calor etc. A estrutura emocional e cultural daquele que percebe também é fundamental nesse processo. Se você está de mau humor, por exemplo, cores e formas podem passar despercebidas, ou podem ser vistas de maneira distorcida, com conotações negativas.

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Mesma cor indica sensações diferentes de paladar, como mostra o exemplo acima. Nestas situações, a mensagem visual não se resume à cor, mas na sua relação com as formas, texturas e aromas.

As investigações científicas sobre os efeitos das cores não levaram, até hoje, a respostas absolutas ou confiáveis. Quando estive na Suécia em 2011, participando do International Colour Design Workshop, promovido pela NCS Colour Academy, confirmei minha descrença na existência de uma resposta humana padronizada às cores, ao conversar com outros estudiosos do assunto. Pesquisas dessa natureza – que testam a permanência de pessoas em determinados ambientes coloridos – mostram que o mesmo experimento apresenta resultados contraditórios quando é repetido, seja em outro momento ou com amostragem de público diferente.

Assim, embora muitos ainda busquem essa resposta generalizante, não é possível imaginar a cor como uma tecla que, quando acionada, cause um efeito conhecido em nosso estado psíquico. A percepção humana é um território extremamente complexo, com um potencial associativo imensurável para estabelecer novas relações, interpretações e significados.

Por essa razão, procuro não ensinar receitas de aplicação das cores aos meus alunos – arquitetos e designers que frequentam cursos como Projetando com a COR ou A cor nos ambientes internos. Faço com que eles, através de exercícios com placas coloridas (Kit Projetando com a COR), compreendam a interatividade cromática para criarem projetos em que prevaleça conforto visual e boa legibilidade de contrastes. Descobrir e ampliar as possibilidades de combinar as cores é algo que enriquece o trabalho de todos que lidam com a comunicação visual.

Pude constatar essa flexibilidade de sentidos e significados da cor na minha pesquisa de doutorado concluída em 2012 – um estudo sobre os usos criativos da cor -, onde analiso e comparo diversos discursos visuais, entre filmes de cinema, campanhas publicitárias e objetos de design. O contexto em que a cor aparece, seja ele a cena de um filme, uma sala de jantar, ou a embalagem de um refrigerante, é determinante para a análise de qualquer efeito psíquico que a cor possa provocar. A simbologia das cores, que corresponde a associações socioculturais, também muda com o tempo, adequando-se a novos hábitos e influências. A existência de uma referência simbólica da cor em determinada cultura não impede, portanto, que o criador, arquiteto ou designer, estimule novas leituras e alcance efeitos inusitados com as cores.

Do ponto de vista criativo, é limitante oferecer receitas dos efeitos que as cores provocam. O ideal é sempre considerar o conjunto composto pelo espaço, formas e cores, através de uma visão mais abrangente e menos dogmática. Cada contexto com suas particularidades, apresenta uma rede de relações que pode transformar, questionar ou até mesmo contradizer uma determinada simbologia associada às cores.

 

Confira outros posts sobre a percepção das cores:

A cor nos ambientes internos

A sensação da cor: um presente da evolução

O fenômeno da cor e seus mistérios

As cores de 2014

 

Fonte das imagens utilizadas neste post (respectivamente, em relação à ordem em que aparecem):
http://www.redbookmag.com;
http://www.mattengloss.in;
http://flippywall.com;
http://adflash.eu

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